Isso é mau?, perguntará você, que veio ao blog. Nem mau e nem bom, eu digo. Só quero lembrar a quem escreve, e sobretudo a quem lê, que a literatura não precisa de limites.
Um amigo, também escritor, uma vez me disse que só conseguia escrever sobre aquilo que esbarrava nele. Pedi outra cerveja e insisti por mais detalhes. Estávamos ele, Adriana Lunardi e eu, no Plebeu em Botafogo. Enquanto a cerveja não chegava, nosso amigo explicou que sua motivação para escrever vinha de pessoas que conhecia, de paixões que vivia, da sua experiência imediata, enfim. Ele achava muito estranho que Adriana tratasse da morte de escritoras do século anterior ou que os protagonistas do romance que eu estava escrevendo fossem sumérios (antes de Roma, explorei a Mesopotâmia).
O Plebeu ia fechar dali a pouco e o errante diálogo etílico seguiu outros rumos. Hoje, recordando esse fiapo de conversa, acredito que também só escrevo sobre aquilo que esbarra em mim. Adriana diria a mesma coisa. Escritores são masoquistas: a gente coça onde dói. A gente escreve para nomear, ressignificar e inflamar a dor da existência.
Narro aquilo que vejo, sinto e sou. Basta ver meus livros. Síndrome de quimera fala de um homem que nasceu com uma serpente enrolada no coração. Zigurate mostra dois imortais que aprenderam muito pouco com a passagem do tempo. O centésimo em Roma conta a história de um centurião que deseja ser promovido.
Sim, o que faço não é realista, mas é real. Mais real do que seria uma descrição exata desta minha rotina meio besta de escritor notívago.
