sábado, 27 de março de 2010

Crítica ao verdadismo

Deste meu ponto de vista de criatura que escreve, e que lê, tenho a impressão de que há grande apego no Brasil a um certo realismo exacerbado, como se o leitor quisesse a garantia de que cada palavra impressa é verdade. O apodo “baseado em fatos reais” é bastante valorizado entre nós. Costumo chamar essa distorção hipertrófica do realismo de “verdadismo”. E culpo a tradição verdadista por manter nossa literatura desconfiadamente distante do realismo fantástico, do romance histórico e da literatura de gênero.

Isso é mau?, perguntará você, que veio ao blog. Nem mau e nem bom, eu digo. Só quero lembrar a quem escreve, e sobretudo a quem lê, que a literatura não precisa de limites.

Um amigo, também escritor, uma vez me disse que só conseguia escrever sobre aquilo que esbarrava nele. Pedi outra cerveja e insisti por mais detalhes. Estávamos ele, Adriana Lunardi e eu, no Plebeu em Botafogo. Enquanto a cerveja não chegava, nosso amigo explicou que sua motivação para escrever vinha de pessoas que conhecia, de paixões que vivia, da sua experiência imediata, enfim. Ele achava muito estranho que Adriana tratasse da morte de escritoras do século anterior ou que os protagonistas do romance que eu estava escrevendo fossem sumérios (antes de Roma, explorei a Mesopotâmia).

O Plebeu ia fechar dali a pouco e o errante diálogo etílico seguiu outros rumos. Hoje, recordando esse fiapo de conversa, acredito que também só escrevo sobre aquilo que esbarra em mim. Adriana diria a mesma coisa. Escritores são masoquistas: a gente coça onde dói. A gente escreve para nomear, ressignificar e inflamar a dor da existência.

Narro aquilo que vejo, sinto e sou. Basta ver meus livros. Síndrome de quimera fala de um homem que nasceu com uma serpente enrolada no coração. Zigurate mostra dois imortais que aprenderam muito pouco com a passagem do tempo. O centésimo em Roma conta a história de um centurião que deseja ser promovido.

Sim, o que faço não é realista, mas é real. Mais real do que seria uma descrição exata desta minha rotina meio besta de escritor notívago.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Amostra grátis

Aos mais curiosos, aí vão os dois primeiros capítulos de O centésimo em Roma.

I

O passo indolente do cavalo contrasta com a empertigada postura de quem o conduz. Para o quadrúpede, não importa se estão a chegar num quartel, no Palácio ou na casa da mãe de alguém. Para o bípede nos costados do animal, pesa a obrigação de simular dignidade; ele é um veterano, metido em seu fardamento completo: o báculo de madeira que o distingue como centurião, o elmo encimado pelo penacho escarlate, a capa voejando nos ombros, a couraça ornada com medalhas de mérito, as grevas de bronze protegendo as canelas, o calção escondido sob a túnica de lã e a sobretúnica de couro, as botas com cravos na sola, o gládio e o punhal pendentes na cintura e, preso ao braço, o escudo riscado pelos golpes do aço germano. Apenas um legionário sonolento, escorado na muralha, guarnece os portões abertos da Castra Praetoria, o quartel da guarda pretoriana e das coortes urbanas, no Monte Viminal. O centurião encara o sentinela com olhos de pai severo, ergue a mão ao elmo, fazendo a saudação dos legionários, e se anuncia:

— Publius Desiderius Dolens, centurião pilus posterior da segunda centúria do primeiro manípulo da quinta coorte da Legio Prima Germanica. Ave!

O legionário, sem ao menos desencostar o ombro do muro, leva as pontas dos dedos ao elmo e termina a saudação estendendo displicentemente o braço na direção do acampamento, como se dissesse: “Se quiser entrar, entre”.

Desiderius Dolens, dividido entre indignar-se ou achar graça do bravo guardião, entra vagarosamente no quartel.

Na praça diante do prédio principal, alguns homens se exercitam sob o comando de centuriões cujas bochechas vermelhas denunciam o amor pelo vinho. Muitos outros legionários, despidos de armas e elmos, entretêm-se com jogos de bola, apostam nos dados ou tomam sol deitados na relva. Mulheres lavam roupa e cantam em torno da fonte pública. Crianças correm, gritam e brincam de guerra.

Dolens, numa ligeira mirada, localiza o alojamento do intendente castrense. Apeia do cavalo e prende a rédea num pilar. Enquanto se ocupa disso, um menino de três anos arremete contra ele e começa a cutucá-lo na coxa com uma espada de madeira.

— Homem mau! — diz o menino. — Homem mau!

O olhar de Dolens reflui da correnteza da fera para o remanso do adulto:

— Você nem imagina quanto.



II

Publius Desiderius Dolens nasceu em Roma, numa viela da Suburra, no décimo oitavo ano de principado do imperador Tiberius. Era filho de Publius Desiderius Linus, um padeiro que, tendo enlouquecido, acreditava ser o divino Julius César.

A demência do pai humilhava Dolens, especialmente depois que o velho Linus adquiriu o hábito de perambular pelas ruas coroado de louros, apregoando éditos abstrusos e comandando legiões inexistentes, o que fez com que os vizinhos lhe dessem a alcunha de “Cesárculo” (o Cesarzinho). Desiderius Dolens tinha ímpetos homicidas toda vez que alguém ousava chamá-lo de “filho de Cesárculo”.

Linus desapareceu durante o Grande Incêndio do ano oitocentos e dezessete da fundação da Cidade. O corpo nunca foi encontrado. Mesmo assim, Dolens gastou dois mil sestércios nas honras fúnebres.

Desde muito jovem, Desiderius Dolens recusou-se a seguir os mandamentos do destino. E, em parte para fugir de uma família da qual se envergonhava, em parte por um candente desejo de ascensão social, ele se alistou nas legiões.

Como legionário, sobressaiu-se pela coragem e frieza nas situações mais difíceis. Cumpriu boa parte de seu tempo na Legio Prima Germanica, aquartelada na Germânia Inferior. Nessa província remota e insegura, seus companheiros de armas se referiam a ele como “o carniceiro de Bonna”.


Vita Dolentis, de Quintus Trebellius Nepos.

domingo, 7 de março de 2010

A vastidão do Império e o intrincado arranjo dos prédios públicos na cidade de Roma me fizeram pensar que o leitor gostaria de ter algum mapa ao alcance das mãos (ou dos cliques). Como sou teimoso adepto do “faça você mesmo”, rascunhei dois mapas, com boa vontade e nenhuma técnica, apoiando-me numa infinidade de modelos que reuni em pesquisas no Google, principalmente o Plan of Imperial Rome e o Plan of the Imperial Forums and their Vicinity, de William Robert Shepherd, o Map of Ancient Rome, de Samuel Ball Platner e o mapa The Roman Ascendency during the first Century A.D., de Robert Henlopen Labberton.
Fátima Agra fez a arte final.

Estes são os mapas que aparecem no livro (clique neles para vê-los num tamanho decente):



O Império:



A Urbe:

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por que Roma?

O que deu em você para escrever um romance que se passa na Roma Antiga? É o que todo mundo me pergunta.

Mas por que não? Sou romano. E você também é, caro leitor.

Todos nós, nascidos no lado ocidental do mundo, somos romanos, porque nossa civilização, nossas crenças, nossas perguntas e nossas tentativas de resposta vieram de Roma. Sem Roma, não conheceríamos os gregos. Sem Roma, não falaríamos português. Sem Roma, não existiria um Brasil. Pelo menos, não o Brasil latino onde vivemos.

Aqui vai o texto da orelha de O centésimo em Roma, preparado pela Rocco:

O centurião Publius Desiderius Dolens, depois de anos combatendo bárbaros na Germânia, está de volta às apinhadas vielas de Roma. Estamos em 68 d.C. As legiões romanas dominam o mundo. Nero, o imperador insano, comanda as legiões — ou, pelo menos, imagina comandar.

Conhecido em toda parte como o Carniceiro de Bonna, o ambicioso centurião Dolens deseja bem mais que ser um plebeu temido e admirado por sua capacidade de matar. Quer ingressar na ordem dos cavaleiros, posição de prestígio no Império Romano e passaporte para o mundo dos nobres. Como não dispõe da fortuna necessária para se tornar cavaleiro — duzentos e cinquenta mil sestércios, não incluídos aí os subornos de praxe —, ele precisa contar com algumas articulações políticas, as quais, para seu desgosto, são rapidamente desfeitas quando seu benfeitor cai em desgraça.

Frustrado, resta-lhe o cargo de chefe da guarda dos urbanicianos, a ralé da polícia local. O prêmio de consolação faz com que Dolens continue tão plebeu quanto antes, e agora suas tarefas são controlar arruaceiros, escoltar figurões a prostíbulos e investigar a morte de um senador da República. Ao que tudo indica, o nobre senador foi assassinado por integrantes da misteriosa seita dos cristãos, fanáticos que cultuam um judeu crucificado.

Metido numa investigação claudicante e obcecado por ascender socialmente, Dolens — dono de uma ética própria e de um coração mais melancólico do que raivoso — é o irresistível anti-herói criado pelo escritor Max Mallmann para dar vida à época em que homens poderosos, na disputa pelo trono de Nero, travaram uma guerra que levou Roma, e com ela toda a civilização ocidental, à beira da destruição.

O centésimo em Roma é um bem-humorado romance histórico, escrito com base em sólida e apaixonada pesquisa. Roma, palco de disputas políticas e conspirações, ressurge com irônica vivacidade: “colossal e patética em seus monumentos de mármore pintados em cores grotescas, é um estridente turbilhão de pregoeiros, cambistas, mendigos, vendedores, taberneiros, adivinhos, advogados e mestres-escolas. Nenhuma pedra da Cidade conheceu jamais um instante de silêncio.”

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pois é

Depois de quase cinco anos recolhido no tugúrio, tenho um livro novo para mostrar.

Chama-se O centésimo em Roma.

É um romance.

Dã...

O que é romance?

É um gênero literário filho da epopeia. Começou a nascer no século I, em Roma, com o Satyricon, de Petrônio; engatinhou no século X, no Japão, com o Genji Monogatari, de Murasaki Shikibu; pôs-se de pé no século XVII, na Espanha, com El ingenioso hidalgo don Quixote de la Mancha, de Cervantes. E virou rapazinho a partir do final do século XVIII, no mundo todo, como expressão preferencial do Romantismo, quando ganhou força, entre nós, lusófonos, o termo romance.

Segundo o Dicionário Houaiss, um romance é a prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc.

A palavra romance costuma ser associada pelo senso comum às histórias de amor. Em boa parte das vezes, não é o caso. No catálogo dos sentimentos humanos, o amor, ao menos para mim, é o menos empolgante dos temas literários. O medo, a inveja, a cobiça e o ódio sempre me interessaram mais.

O centésimo em Roma fala de medo, de inveja, de cobiça e de ódio. E, talvez nalguma entrelinha, de amor.

É uma antiepopeia. E se passa no século I. Em Roma.


O centésimo em Roma, publicado pela Rocco, será lançado no dia 15 de abril, na Livraria da Travessa de Ipanema.

Esta é a capa:



Bonita, não?
Foi feita pelo estúdio Retina78.
E foi a partir dela que minha irmã Renata Mallmann formatou este blog.