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sábado, 24 de julho de 2010

Entrevista

Meus caros,

Vejam a entrevista que dei para Cíntia Borges, da Rocco:

Por que escolheu a Roma Antiga para ambientar seu novo romance?
Por que escolhi a Roma Antiga? Por que não? Eu sou romano. Você também. Todos nós, nascidos no lado ocidental do mundo, somos romanos, porque nossa civilização, nossas crenças, nossas perguntas e nossas tentativas de resposta vieram de Roma. Sem Roma, não conheceríamos os gregos. Sem Roma, não falaríamos português. Sem Roma, não existiria um Brasil.

Sempre gostei de História Antiga, como muita gente. Comecei a estudar sistematicamente o Império Romano depois do 11 de Setembro, como milhares de pessoas. Mas o que me motivou mesmo a escrever O centésimo em Roma foi a possibilidade de ter a primeira metrópole do mundo como cenário para uma narrativa. Sou um urbanoide. Cidades são animais que me interessam. Cidades rosnam e transpiram. Eu queria cheirar o suor da Roma do século I.

O estopim de seu irônico romance seria a visita ao sebo Nova Roma (já aqui um delicioso sarcasmo), onde teria encontrado a obra que o instigou a remendar o passado?
Segundo Mario Quintana, “a verdade é uma mentira que se esqueceu de acontecer”, e Manoel de Barros declarou: “tudo o que eu não invento é falso”. Amparado nos dois, eu diria que tudo o que escrevo é verdade, mesmo que não tenha ocorrido. O sebo Nova Roma existe, a Roma do século I existiu e o carcomido exemplar da Vita Dolentis que me inspirou a escrever o romance é para mim tão tangível quanto os bytes que digito.

Recriar a pretensa obra de um historiador da Antiguidade afasta, aproxima ou provoca o leitor a pensar sobre o que é a verdade histórica?
Não existe verdade histórica. Depois de muito pensar a respeito, decidi que, para mim, qualquer coisa que não possa ser provada matematicamente é ficção. Assim, a História, a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Mitologia e a Teologia seriam apenas subgêneros da narrativa ficcional ou, mais exatamente, seriam “literatura de gênero”, no mesmo patamar da narrativa policial, do romance histórico ou da ficção científica. Por outro lado, como não entendo nada de matemática, considero que a Física e seus derivados pertencem ao reino da magia.

Trebellius Nepos, suposto autor do texto, é um primeiro distanciamento – e, por que não, alter ego – para que você pudesse livremente dar corpo ao romance?
O centésimo em Roma tem dois planos narrativos: um em terceira pessoa, que mostra o “presente” das tramas, e outro em primeira pessoa, em tom memorialístico, no qual Trebellius Nepos, cinquenta anos depois dos fatos, narra as peripécias que viveu ao lado do centurião Desiderius Dolens. Esses dois planos se alternam, se complementam e, de modo sutil, às vezes se contradizem: a narrativa em terceira pessoa vem com o calor do acontecimento; a narrativa em primeira se permite uma reflexão — por vezes deformadora — do acontecido.

Escolher Trebellius Nepos como narrador me deixou livre para criar um jogo de revelação e ocultamento com o verdadeiro protagonista, que é Desiderius Dolens. Aliás, meu alter ego no romance é o Dolens. Nunca havia criado um personagem tão parecido comigo. A principal diferença é que o estilo de vida dele é mais saudável que o meu.

Em seu romance histórico, a intertextualidade dá as cartas a todo momento. Neste sentido, até que ponto ela enriquece, para quem lê, o registro histórico?
No século XXI, mais que pós-modernos, somos pós-utópicos, como diz Flávio Carneiro. Googlados, blogados e twittados, somos todos inter e hiper textuais. Engendrando e assumindo citações, paráfrases e anacronismos, eu apenas ajo como uma criatura da nossa época. Para mim, seria impossível trabalhar de outro jeito. Como ignorar a sensação de que tudo já foi escrito?

Seriam as metrópoles de hoje – com seus jogos políticos, de interesses e idiossincrasias próprias –, guardadas as devidas proporções, “reedições” da Roma Antiga, a Cidade Eterna?
Não aconteceu nada em Nova York, em Londres, em Paris ou no Rio que não tenha acontecido séculos antes em Roma. Metrópoles são animais que nascem e crescem em variados climas e terrenos, mas conservam sempre o mesmo temperamento.

Embora atrapalhado, o protagonista Desiderius Dolens é um sujeito preparado, mas que não consegue ascender à condição de nobre e acaba fadado a um cargo na mais baixa divisão da polícia local. De homem de potencial sucesso a escravo do fracasso, este típico anti-herói é uma crítica ao despreparo da nossa polícia?
Nunca pensei em Dolens como policial, ou mesmo como soldado. Acho que ele próprio se considera uma espécie de servidor público polivalente. No ano 68 d.C., mandam-no investigar a morte de um senador, como já o haviam mandado tapar buracos nas estradas da Germânia ou trucidar bárbaros. São tarefas que ele precisa cumprir para garantir seu emprego. Dolens não é movido pelo senso de dever ou pelo desejo de justiça, mas pelo instinto de sobrevivência. Tenho certeza de que, se pudesse, ele preferiria passar a vida bem sossegado num gabinete, preenchendo relatórios. Infelizmente, o momento histórico o obriga a agir como herói — ou como vilão, dependendo do ponto de vista.

Em suas “Notas diversas”, ao fim do livro, você reafirma um senso comum de que “tudo está em Shakespeare”. No entanto, apesar das 12 citações do bardo inglês ao longo da narrativa, é em Machado de Assis que mora sua referência mais curiosa. Do Bruxo do Cosme Velho, você “rouba” o título, a epígrafe e o último parágrafo de seu livro. Seria esta uma forma de redenção tupiniquim de que também “tudo está em Machado”?
Não sei se tudo está em Machado. Só sei que eu estou em Machado. Sem Machado, eu não existiria. E só espero que o Bruxo do Cosme Velho não se revire no túmulo com esta minha confissão.

Quando você reproduz com fidelidade em seu livro um excerto de Machado de Assis, em pleno século XXI, que novos significados ambiciona provocar e contextualizar?
Nas “Notas diversas”, ao final do livro, cito este trecho do artigo Notícia da Atual Literatura Brasileira — Instinto de Nacionalidade, de Machado de Assis:
...e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu
têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se,
entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta
essencialmente inglês.
Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma
literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe
oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a
empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento
íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de
assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando
há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo
que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês,
sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um
scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.
O motivo da citação? Muito simples: essas linhas me absolvem. Machado diz que poderei continuar — e serei inevitavelmente — brasileiro, mesmo me ocupando de “assuntos remotos no tempo e no espaço”, desde que eu mantenha e cultive o “sentimento íntimo” que me faz pertencente ao meu tempo e ao meu país — e à língua portuguesa, eu acrescentaria.
É libertadora essa lição machadiana. Afinal de contas, se ao escritor brasileiro é exigido empenho na construção de uma identidade nacional, por que não construí-la a partir de Roma, que é o berço de todo o Ocidente? Aqui no Brasil, já faz quinhentos anos que somos ocidentais. E latinos. E romanos.
Ave!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O centésimo em Roma no JB

Cultura
Romance reconstitui Império Romano com bom humor

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil


RIO - O centésimo em Roma, de Max Mallmann, agrada e surpreende: é um bem-humorado romance histórico escrito com base em uma sólida pesquisa, com direito a epígrafes de Plutarco e Machado de Assis. Para se ter uma ideia de quanto o autor é apaixonado e pesquisou o assunto, basta ler as extensas “Notas diversas (ou o quê, quem, onde, quando, por quê e como, mas não nessa ordem)” que fecham o volume. O herói é o ambicioso centurião Publius Desiderius Dolens, que, depois de anos combatendo bárbaros na Germânia, onde ganhou o epíteto de Carniceiro de Bonna, está de volta às vielas da cidade eterna. Isso em 68 d.C., quando as legiões romanas dominavam o mundo. Nero, o insano, imperava. Nesta entrevista, Max Mallmann fala de seu fascínio pela antiguidade, da pesquisa que realizou para escrever o livro e de como o cinema e a literatura veem a Roma Antiga.

Uma das epígrafes de O centésimo em Roma é de Plutarco. Você pesquisou muito? A quantidade de informações que o livro apresenta é espantosa.

Desde 2005, quando comecei a trabalhar n'O centésimo em Roma, soube que teria de lidar com um volume monstruoso de informações. O desafio seria tecer com elas uma narrativa que não se tornasse maçante. Espero ter conseguido. Li Plutarco, especialmente as Vidas de Galba e Otho. Li Suetônio, li Tácito, li um pouco de Dion Cássio, outro tanto de Flávio Josefo, algo de Plínio, o Velho e mais um tanto de Cornelius Celsus, e vasculhei historiadores contemporâneos como Paul Veyne, Adrian Goldsworthy e Pierre Grimal, isso para citar apenas os nomes principais da “estante romana” que tenho no quarto. Pesquisei obsessivamente: antes de começar a escrever, durante a escrita e continuo a pesquisar agora, com o livro já nas livrarias. Não consigo nem quero abandonar meus romanos.

Outra das epígrafes vem de Machado de Assis, que também empresta título à obra. É mais fácil do que se pensa juntar Machado e Roma Antiga?

É bastante fácil. Machado era leitor de Tácito, Suetônio e Plutarco. Em Dom Casmurro, em Memórias póstumas de Brás Cubas e em vários contos, como o Um homem célebre, do qual tirei o título, há menções a esses autores. Assim, a ponte de mil e oitocentos anos que une Plutarco e Machado de Assis nas duas epígrafes de O centésimo em Roma é bem mais curta do que parece.

Que autores clássicos da história romana são seus preferidos?

Tácito, sempre. Sou fã de Tácito. Ele escrevia maravilhosamente bem. Tentei imitá-lo o mais que pude. É uma pena que quase não haja traduções em português das obras de Tácito. Minha edição preferida é em espanhol, com tradução de José Luis Moralejo Alvarez. Também gosto muito de Suetônio, porque ele se ocupava das pequenas maledicências que valem ouro para um ficcionista.

Você gosta das recriações romanceadas: Eu, Claudio, de Robert Graves e outras do tipo?

Gosto. Li Robert Graves, Marguerite Yourcenar e alguns outros, como Theodore H. White e seu César no Rubicão. Até Bertolt Brecht fez sua recriação de Roma, com Os negócios do Senhor Júlio César.

E dos filmes da velha Hollywood?

Ah, a velha Hollywood! Onde todos os romanos tinham olhos azuis e se sentiam muito à vontade a fazer refeições, cortejar donzelas ou mesmo cochilar usando a couraça das legiões, que podia pesar dez quilos e não era lá muito confortável. E viviam com tanta seriedade os seus melodramas... Não sei dizer se é apesar ou por causa do exagero, mas gosto dos velhos filmes hollywood-romanos. Tenho especial carinho pelo Júlio César do Rex Harrison, que interpretava seu papel com a dor de quem sabia que, antes do final do filme, a Cleópatra Elizabeth Taylor acabaria na cama com o Marco Antônio Richard Burton.

E das séries recentes, a exemplo de Roma, produzida pela tevê a cabo?

Gostei de Roma, da HBO. A cenografia e o figurino eram perfeitos. E o roteirista e produtor Bruno Heller tomou uma decisão dramatúrgica que funcionou muito bem: as três décadas passadas desde a Guerra das Gálias até o triunfo de Augusto apareceram nas duas temporadas da série como se fossem um período de sete ou oito anos. Num livro, essa aceleração do tempo seria quase uma trapaça, mas na TV ficou ótimo.

A vida de Brian, de Monty Python?

A vida de Brian é um de meus filmes preferidos. Tenho o DVD e volta e meia o revejo. Há uma cena que, além de inesquecível, é exemplificativa do legado romano para a civilização ocidental. Reg, interpretado por John Cleese, é o líder da Frente do Povo da Judeia e, diante do seu grupo de conspiradores, lança a pergunta retórica: os romanos tiraram tudo o que tínhamos, e o que nos deram em troca? Um dos conspiradores, timidamente, ergue o braço e sugere: o aqueduto? Outro cria coragem e fala no saneamento. Mais alguém menciona as estradas. E a irrigação. E a medicina. E a educação. E o vinho. E os banhos. E a ordem pública... Reg, contrariado, tem de reformular a pergunta: Tudo bem. Mas além do saneamento, da medicina, da educação, do vinho, da ordem pública, da irrigação, das estradas e da água potável, o que mais os romanos fizeram por nós? Depois de um breve silêncio, outro conspirador diz: eles trouxeram a paz. Reg fica furioso.

Acaba de sair no Brasil uma pequena novela do escritor catalão Eduardo Mendoza, A assombrosa viagem de Pompônio Flato, cuja ação se desenrola um pouco antes da narrada em seu livro. No de Mendoza, Jesus é um menino. Você já leu o livro? Pois é: os dois tratam a Roma Antiga com humor. Por que a opção?

Não li ainda A assombrosa viagem de Pompônio Flato, mas já o incluí na minha lista de futuras compras. Até onde pude perceber, Eduardo Mendonza, com os romanos dele, é um pouquinho mais simpático ao cristianismo do que eu com os meus... Quanto à opção pelo humor, aconteceu simplesmente porque não vejo outra. Não só na literatura, mas na vida. O humor está presente em tudo o que faço. Até, espero, nesta entrevista.

O centurião Publius Desiderius Dolens, anti-herói do seu romance, é um sofredor como indica seu nome? Ou uma vítima?

O adjetivo dolens significa doloroso, o que tanto pode indicar aquele que sofre quanto aquele que causa o sofrimento. Desiderius Dolens é um pouco das duas coisas. Em seus piores dias, ele certamente se considera uma vítima. Mas, apesar da pouca autoestima, ele se orgulha de, teimosamente, resistir aos maus fados. Ele não é um semideus; é um sobrevivente.

O seu livro dava um filme? Com quem nos papéis principais?

Talvez O centésimo em Roma pudesse dar um filme, sim. Mas não seria uma adaptação fácil. Enquanto escrevo, meus personagens não têm rosto nem voz. Eles são vultos nebulosos feitos de palavras. Se eu fosse pensar num ator para viver Dolens, quem seria? Alguém com uma cara meio esquisita, um olhar forte e algum carisma que o tornasse simpático. E que fosse ao mesmo tempo bom de drama e de comédia. Talvez, quem sabe, alguém parecido com o Ray Milland, com a idade que ele tinha quando fez Farrapo humano, do Billy Wilder, em 1945.

CLIQUE AQUI para ler a entrevista na íntegra
21:02 - 14/05/2010

domingo, 4 de abril de 2010

O centésimo em Roma na Folha Online

A editora Rocco vai lançar, em abril, o romance histórico "O Centésimo em Roma", do escritor e roteirista Max Mallmann, há 4 anos integrante da equipe do seriado "A Grande Família" (Globo).

Mallmann recria a Cidade Eterna entre os anos 68 e 69 d.C.. Nobres e plebeus, cristãos, judeus, gregos, etíopes, indonésios e germanos convivem em vielas e becos de uma cidade barulhenta que é palco de sangrentas disputas pelo poder.

Cheio de referências --de Tácito a Shakespeare e Machado de Assis--, o romance dialoga com obras de historiadores antigos e modernos e com a literatura de diferentes períodos, em tom coloquial, com bom humor e ritmo, características que Mallmann traz de seu trabalho para a TV.

Max Mallmann estreou na literatura com "Confissão do Minotauro", ganhador do prêmio Nova Literatura do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.

"Mundo Bizarro", seu 2º romance, foi selecionado pelo Fumproarte, da Prefeitura de Porto Alegre, e ganhou o prêmio Açorianos de melhor romance publicado no Rio Grande do Sul em 1996.

Em 2000, ele passou a fazer parte do catálogo da Rocco, por onde lançou a novela "Síndrome de Quimera", finalista do prêmio Jabuti, e o romance "Zigurate - uma fábula babélica".

Como roteirista, além do seriado "A Grande Família", escreveu também para os programas "Malhação", "Coração de Estudante" e "Carga Pesada". O "Centésimo em Roma", seu quinto romance, chega às livrarias a partir de 3 de abril.