segunda-feira, 8 de março de 2010

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Aos mais curiosos, aí vão os dois primeiros capítulos de O centésimo em Roma.

I

O passo indolente do cavalo contrasta com a empertigada postura de quem o conduz. Para o quadrúpede, não importa se estão a chegar num quartel, no Palácio ou na casa da mãe de alguém. Para o bípede nos costados do animal, pesa a obrigação de simular dignidade; ele é um veterano, metido em seu fardamento completo: o báculo de madeira que o distingue como centurião, o elmo encimado pelo penacho escarlate, a capa voejando nos ombros, a couraça ornada com medalhas de mérito, as grevas de bronze protegendo as canelas, o calção escondido sob a túnica de lã e a sobretúnica de couro, as botas com cravos na sola, o gládio e o punhal pendentes na cintura e, preso ao braço, o escudo riscado pelos golpes do aço germano. Apenas um legionário sonolento, escorado na muralha, guarnece os portões abertos da Castra Praetoria, o quartel da guarda pretoriana e das coortes urbanas, no Monte Viminal. O centurião encara o sentinela com olhos de pai severo, ergue a mão ao elmo, fazendo a saudação dos legionários, e se anuncia:

— Publius Desiderius Dolens, centurião pilus posterior da segunda centúria do primeiro manípulo da quinta coorte da Legio Prima Germanica. Ave!

O legionário, sem ao menos desencostar o ombro do muro, leva as pontas dos dedos ao elmo e termina a saudação estendendo displicentemente o braço na direção do acampamento, como se dissesse: “Se quiser entrar, entre”.

Desiderius Dolens, dividido entre indignar-se ou achar graça do bravo guardião, entra vagarosamente no quartel.

Na praça diante do prédio principal, alguns homens se exercitam sob o comando de centuriões cujas bochechas vermelhas denunciam o amor pelo vinho. Muitos outros legionários, despidos de armas e elmos, entretêm-se com jogos de bola, apostam nos dados ou tomam sol deitados na relva. Mulheres lavam roupa e cantam em torno da fonte pública. Crianças correm, gritam e brincam de guerra.

Dolens, numa ligeira mirada, localiza o alojamento do intendente castrense. Apeia do cavalo e prende a rédea num pilar. Enquanto se ocupa disso, um menino de três anos arremete contra ele e começa a cutucá-lo na coxa com uma espada de madeira.

— Homem mau! — diz o menino. — Homem mau!

O olhar de Dolens reflui da correnteza da fera para o remanso do adulto:

— Você nem imagina quanto.



II

Publius Desiderius Dolens nasceu em Roma, numa viela da Suburra, no décimo oitavo ano de principado do imperador Tiberius. Era filho de Publius Desiderius Linus, um padeiro que, tendo enlouquecido, acreditava ser o divino Julius César.

A demência do pai humilhava Dolens, especialmente depois que o velho Linus adquiriu o hábito de perambular pelas ruas coroado de louros, apregoando éditos abstrusos e comandando legiões inexistentes, o que fez com que os vizinhos lhe dessem a alcunha de “Cesárculo” (o Cesarzinho). Desiderius Dolens tinha ímpetos homicidas toda vez que alguém ousava chamá-lo de “filho de Cesárculo”.

Linus desapareceu durante o Grande Incêndio do ano oitocentos e dezessete da fundação da Cidade. O corpo nunca foi encontrado. Mesmo assim, Dolens gastou dois mil sestércios nas honras fúnebres.

Desde muito jovem, Desiderius Dolens recusou-se a seguir os mandamentos do destino. E, em parte para fugir de uma família da qual se envergonhava, em parte por um candente desejo de ascensão social, ele se alistou nas legiões.

Como legionário, sobressaiu-se pela coragem e frieza nas situações mais difíceis. Cumpriu boa parte de seu tempo na Legio Prima Germanica, aquartelada na Germânia Inferior. Nessa província remota e insegura, seus companheiros de armas se referiam a ele como “o carniceiro de Bonna”.


Vita Dolentis, de Quintus Trebellius Nepos.

2 comentários:

Nelson São Bento disse...

Vou esperar tua vinda a Porto Alegre para completar minha coleção Max Mallmann. Abração, parceiro! Nelson São Bento

Anônimo disse...

Fiquei com água na boca, Max! Ainda bem que dia 15 de abril está pertinho! Sucesso.
Patricia Skaetta.